Brasanha - Cronicas de Larissa d'Avila da Costa

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Apelidos carinhosos

A maneira como as pessoas se chamam carinhosamente é um fator de crassa diferença entre culturas. Apelidos carinhosos não podem ser traduzidos para outros idiomas, nem aplicados à pessoas que não entenderiam o seu contexto e o seu significado na língua materna. Eles variam muito de interpretação, entonação e principalmente tem muito a ver com o sentido pessoal de cada um.

Vamos começar pela maneira que chamamos crianças.

Aqui na Alemanha é comum os pais chamarem os filhos de “Maus”, que significa rato. Uma vez perguntei a um amigo alemão por que esse apelido é tão difundido se rato é um bicho tão feio. Ele me explicou: “não é qualquer rato, daqueles grandes de bueiro, é um ratinho do campo, pequeninho, branquinho” ou seja, um camundongo. Mesmo um ratinho bonitinho, seria muito esquisito um pai brasileiro chamar o seu filho de camundonguinho.

Meu sogro costuma chamar seus netos de Zwerge e Spatz. O primeiro apelido significa anão. Zwerge em alemão não significa aquele que sofre de nanismo, e sim, uma figura pequena de contos de fadas, de histórias, não possui o mesmo significado pejorativo que teria se chamássemos alguém de anão em português. O segundo apelido quer dizer pardal. Ele chama seus netos assim, porque pardal é um passarinho pequeno e bonitinho. Esses apelidos também não fariam nenhum sentido em português.

Mas no que tange apelidos terem sentido, o que seria quando passamos agora para o meu sobrinho no Brasil e aos diferentes apelidos com que é carinhosamente chamado em casa. Meu pai o chama de “Tarzan minhoca”. Minha mãe o chama de “Xuxo” e eu o chamo de “Pixirica”, que é como a minha vó costumava chamar a mim e ao meu irmão quando éramos pequenos. Tenho que confessar que não é mais bonito, mas pelo menos é mais criativo e engraçado.

Os apelidos com que casais se chamam também são curiosos. Fora a grande variação de animais, selvagens ou não, temos alguns apelidos standards. Aqui na Alemanha o básico é Schatz, que significa tesouro, e Liebling, que na verdade tem dois significados: preferido e amor, fiquemos, nesse caso, com amor, que soa melhor para apaixonados.

Amor no Brasil também é um apelido comum, se não fosse o fato de ele se transformar em “mooooooooôôôôôôôôrrrr”. Note como o “o” cresce de entonação na medida que a palavra se prolonga. Ele também poderá ser mais curto ou mais longo, já identificando, dessa forma, o humor da namorada ou esposa. Ele também poderá ser acompanhado de um “ai” moooor!!!, ou um “aaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiii mooooooôôôôôôrrrrr”.

Brasileiros usam muito o paixão. Essa variante em alemão não viraria moda, pois paixão em alemão é Leidenschaft. Muito comprido.

Também muito comum no Brasil se ouvir “neguinha ou neguinho”. Isso não daria certo na Alemanha. A pessoa seria tachada de racista, o que pegaria muito mal.

Na Espanha ouve-se muito o “cariño”: Ay cariño, no me digas!! Também não pegaria no Brasil

Nos Estados Unidos o “sweet heart” é básico. Imagine-se traduzir isso para o português: coração doce, ou para o alemão: süßes Herz. Não rola.

A lista é infinita, poderíamos encontrar e citar uma multiplicidade de apelidos bonitinhos, esquisitos, engraçados, exóticos, criativos. Depende de cada um criar o seu próprio, adotar ou adaptar algum para si. E pode ter certeza, todo mundo tem um.

Larissa d’Ávila da Costa Mannheim, julho de 2007.